Histórias do Frei Rui Guido Depiné

O juiz e o Frei Rui

O Brasil é um país injusto cheio de pessoas justas e que têm misericórdia dos desvalidos. É o caso do Juiz Moacir Dala Costa. Apesar de ocupar o posto importante de Juiz, sempre foi humilde e bom. Ajudava a todos.

O Frei Rui, descendente de italianos, era muito trabalhador. Rápido. Vivia correndo. Tinha muita coisa a fazer. Não parava um minuto. Era até difícil acompanhar o ritmo dele.

Um dia estes dois homens se encontraram: o Juiz Moacir e o Frei Rui.

Foi em uma das várias festas para as crianças que o Frei promoveu nos quase 40 anos de trabalho em Piraquara.

Nos bairros: milhares de crianças a espera de presentes e doces.

No São Roque: caminhões sendo carregados com centenas de brinquedos, doces, guloseimas.

Correria. Pouco tempo. Muita coisa para fazer.

E o Frei Rui, amorosamente, punha todo mundo para trabalhar: “amigo leva esta caixa aqui… companheiro carrega este pacote ali…” e, assim, Frei Rui ia direcionando os trabalhos e organizando a caravana que trabalharia o dia todo.

Incentivava a todos com a expressão italiana “Dai, dai!”; que significa: “Vamos, vamos!”.

Correria.

Neste corre, corre, o Frei Rui olhou para o Dr. Moacir e pediu: “amigo, carrega esta caixa” e praticamente o dia todo o Dr. Moacir trabalhou levando caixas de brinquedos aqui e ali, distribuindo doces e atendendo aos pedidos do Frei Rui, que sabemos que só descansava quando via que todas as crianças tinham recebido algum brinquedo. O Juiz, com boa vontade, continuava atendendo os pedidos do Frei Rui “Dai, dai!”. O Juiz obedecia e em nenhum momento se apresentou. Não falou que era um Juiz, simplesmente, ajudava.

Até que uma das voluntárias chegou junto ao Frei e provocou, em tom de brincadeira:

– “Que bom, Frei Rui! Finalmente vejo um Padre dar ordens e para um Juiz e colocá-lo para trabalhar”.

Quem conheceu o Frei Rui sabe o quanto ficou desconcertado e com seu jeito simples e carinhoso pediu desculpas … constrangido, inicialmente. Na sequência, muita risada, todos se divertiram com a história, pois o Dr. Moacir não estava nem aí, só queria, como sempre, ajudar.

A amizade do Juiz com o Frei Rui durou até o passamento do Frei. Dura até hoje. Vai durar para sempre.

Ninguém é desrespeitado por ajudar numa obra social, independentemente da sua atividade e do status que tenha na vida.

“Dai! Dai!”

Juiz Moacir Dala Costa

Frei Rui: Dai! Dai!

O segurança particular do Frei Rui

Seu nome era Daniel. Com problema cognitivo e um pouco de dificuldade motora, foi deixado pela família no Hospital São Roque quando era criança. Hospital São Roque, atual Hospital de Dermatologia Sanitária do Paraná.

Aquele era o seu lar. As Irmãs eram suas mães. E o Frei Rui, ele tomou como pai. E um pai que precisava ser protegido.

Apesar de ter uma estatura pequena, ele conseguiu uma espécie de farda e um apito. Colocava-se na defesa do Frei Rui e das Irmãs. Era um segurança particular.

Quando a Irmã Inês ia no Carrefour fazer compras para a casa, ele ia junto e ficava tomando conta da Kombi. E ninguém chegava nem perto…

Nos finais das Missas, sempre tinha muita gente querendo falar com o Frei Rui. Pois o Daniel colocava-se à frente da multidão tentando dispersá-los: Falava: “O Frei tá muito ocupado, vão embora. O Frei não pode atender tanta gente. O Frei precisa descansar…vão para suas casas…”.

Ele fazia um gesto passando a mão pelo pescoço e dizia: “O Frei está por aqui de serviço!”

Mas, sendo muito conhecido por todos, não conseguia seu objetivo. Ficava lá de “guarda” enquanto o Frei Rui atendia todo mundo.

Aos sábados, no final das Missas, o Frei ia levar a Comunhão para os doentes. Durante um bom período, era o Daniel quem acompanhava o Frei. Levava em uma mão uma luminária com vela e, na outra, o sino. Entrava no Hospital batendo o sino e avisando em tom alto: “Silêncio, olha o Padre!”.

Faleceu no Hospital.

Era um anjo com farda e apito. Hoje deve estar no céu, tentando fazer a segurança de um outro anjo chamado Frei Rui.

Frei Rui Depiné: o Sacerdote que dá Graças a Deus!

O Frei Rui um dia levou o grupo de voluntários, que trabalhava com ele, para conhecer uma família que tinha problemas graves. O pai era o único saudável e trabalhava incansavelmente para trazer o pão de cada dia para casa. A filha tinha uma doença que não lhe permitia ter todos os movimentos, tanto nas pernas quanto nos braços, o que dificultava imensamente dar conta dos afazeres de casa. E havia um tio tetraplégico, que já era cuidado pela sobrinha apesar de suas limitações. O pai, quando chegava a noite, terminava de ajudar a cuidar do irmão.

Todos ficaram penalizados pois a situação era mesmo bem difícil e começaram a entregar as cestas básicas, roupas e remédios para a família, todos os meses.

Um dia, chegaram nesta casa e encontraram eletrodomésticos novos e muito bons. De ótima qualidade: fogão, geladeira, televisão, máquina de lavar roupa. Eram melhores até do que os eletrodomésticos da casa dos voluntários. Ficaram surpresos!

Quando voltaram ao São Roque e encontraram com o Frei Rui, comentaram que a casa que eles ajudavam tinha eletrodomésticos de última geração, melhor até do que os eletrodomésticos que eles, os voluntários, tinham em suas casas.

Frei Rui, o professor, falou: “Graças a Deus, não é? Que bom que eles podem ter eletrodomésticos que facilitam a vida tão difícil deles. Graças a Deus!”

O Frei Rui tinha providenciado todos aqueles eletrodomésticos. Pedia ajuda a quem podia para auxiliar quem precisava.

A partir daquele dia o grupo de voluntários, ao encontrar uma família que tinha melhorado de condições, sempre dizia:
“Graças a Deus! ”

Frei Rui, Graças à Deus que nós pudemos conhecer você e participar um pouco do seu importante trabalho!

O Sacerdote e as Santas!

Eram internas do Hospital São Roque quatro irmãs. Quando mudou a política de internamento e os pacientes saíram do Hospital, o Frei Rui construiu uma casinha para essas quatro irmãs. Muito católicas que eram, trataram de decorar toda a sala com várias imagens de Santas e de Nossa Senhora.
Não havia um espaço na parede sem a imagem de Nossa Senhora ou de uma Santa:
Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Nossa Senhora de Guadalupe,  Nossa Senhora das Graças, Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora do Carmo, Santa Bernadete, Santa Terezinha do Menino Jesus, Santa Tereza D’Ávila, Santa Rita de Cássia, Santa Clara, Santa Marta, Santa Zita, Santa Bárbara, Santa Efigênia, Santa Catarina, Santa Cecília…
E assim era.

Quando o Frei Rui chegava, junto com o grupo de voluntários, trazendo comida, roupas, remédios; também dava uma bênção.
Olhava para as paredes repletas de Santas e falava:
– “Cadê a Santa? Assim não é possível… Como vou abençoar uma casa onde não tem uma imagem de Santa? ”
E todos caíam na risada. Até as Santas achavam graça…

Frei Rui, nós sempre nos emocionamos com você. Choramos e rimos muito.
Por isso agradecemos à Deus, à Nossa Senhora e à todas as Santas, a grande oportunidade de ter participado um pouco da sua vida.

Obrigada!

Frei Rui Depiné: o Sacerdote que não tinha dúvidas

Em um dos bairros de Piraquara que o Frei Rui atendia, havia uma senhora muito necessitada de ajuda pois era doente e bem pobre. Mal tinha o que comer. Mas ela não era católica e se recusava a ser atendida por grupos de ajuda católicos, muito menos por um Padre.

O Frei Rui, vendo aquela situação, não teve dúvidas. Todos os meses ia com um grupo de voluntários levar comida, remédios, roupas, cobertores e até eletrodomésticos mas…naquela casa… todos deveriam chamá-lo simplesmente de Rui. Era meio confuso pois o grupo estava muito acostumado a chamá-lo de Frei. Mas todos se esforçavam e o chamavam somente de Rui.
Rui, o Frei, o Sacerdote, não tinha dúvida em despir-se de sua honraria – ser um sacerdote – para ajudar outra pessoa.

Frei Rui Depiné, o Sacerdote que não tinha dúvidas.

Sardinhas e Balinhas

Entre os anos de 1980 e 1990 muitas famílias migraram para Piraquara. Vinham de vários lugares, as vezes sem nada. O Frei Rui ajudava a todos como podia.
Uma dessas famílias deu um depoimento.

O Frei se preocupava com um teto:
Arranjou o necessário para que tivessem um lar.

O Frei se preocupava com a fome de pão:
Encontrava trabalho e dava pães e sardinhas para matar a fome deles.

Também cuidava da fome de alegria:
Dava balinhas para as crianças, o que os enchia de felicidade.

E, principalmente, mostrava a face misericordiosa de Deus:
Oferecia a mão amiga e solidária o que enchia seus
corações de esperança, fé e amor.

Segue o belo depoimento desta bendita família:
“Boa tarde. Quando nos mudamos para o município de Piraquara, precisamente para a Vila Macedo, em meados de 1992, eu tinha 5 anos, minha família muito pobre e com muitos filhos.
O Frei Rui ajudou doando madeiras e telhas (que ele arrecadou). Assim nós conseguimos um espaço para chamar de lar.
Também sempre chamava meu pai e tio para carpir ou fazer alguma coisa no São Roque, em troca dava comida. Por muito tempo as sardinhas e os pães foram a nossa salvação.
Todo natal ele passava dando balinhas. Meu coração infantil via ele como papai Noel.
Sempre que penso nele vem um sentimento de gratidão e santidade. Ele dava sem esperar nada em troca.
Tive o privilégio de crescer ouvindo as Missas dele, sou madrinha do meu sobrinho e ele celebrou o batismo.
Sou muito grata, pois hoje não passo mais fome e tenho uma vida bem boa.
Espero muito oferecer um pouco do que ele me deu as pessoas a minha volta.
Contem comigo!

A Fé de Dona Maria

“Andar com fé eu vou
Que a fé não costuma falhar”

Dona Maria Souza Paula, tem 9 filhos, um deles o Léo já está na casa do Pai, 16 netos,10 bisnetos e muitos irmãos, família numerosa. Nunca deixou de servir mesa farta para todos. Sempre ajudou nos trabalhos de caridade da Igreja, é legionária de Maria, reza o terço várias vezes e todos os dias. É a mãe da Edna Dias.

Jucimara Bosshardt Pallar, apesar do nome indígena, é descendente de suíços, cursou Direito e atuou muitos anos na área da Justiça brasileira. Nós a chamamos de Juci. Alegre, comunicativa, era uma filha para o Frei Rui. A discípula muito amada. Se o Frei estivesse triste, a chegada da Juci fazia com que seu semblante desvanecesse e já começavam a rir e a contar piadas e fazer da vida do Frei Rui um fardo leve e gostoso.

Na primeira festa de Natal do Frei Rui que a Juci participou, no final dos anos noventa, quando o grupo do Tribunal de Justiça tinha arrecadado apenas brinquedos, o Frei Rui, encheu sua Kombi e fomos para o Guarituba distribuir os brinquedos. Como acontece até hoje, antes de sair para distribuir os presentes o grupo se reúne na casa das irmãs lá no São Roque. Na ocasião, a irmã Inês, muito diligente, arrumou 2 formas retangulares de bolo de chocolate e mandou que levasse para distribuir para as crianças.

Bastante criança… pouco bolo, para quem não conhecia direito a fé de Dona Maria que tranquilamente cortava os pedaços de bolo em tamanhos iguais e generosos.

Juci se preocupava com o tamanho dos pedaços do bolo, porque muitas crianças vinham chegando e Dona Maria continuava distribuindo um pedaço de bolo para cada criança (pedaços bem grandes). A racionalidade e o desespero da Juci diziam que muitas crianças ficariam sem bolo. Mas… só para quem não conhecia a fé de Dona Maria. Várias vezes alertavam:
– “Dona Maria, não vai dar o bolo para todas as crianças! Corte pedaços menores!”

Dona Maria com muita calma dizia: “não importa vou distribuir assim até acabar. Afinal, como dizia Gilberto Gil:
“Andar com fé eu vou, que a fé não costuma falhar”

A festa acabou. Todas as crianças ganharam os grandes pedaços do bolo de chocolate servido pela Dona Maria e sobrou um pedaço que dividimos entre nós, cada um comeu uma lasquinha. Até hoje, passados bem mais de 20 anos, a Juci conta essa história e, como tantas outras que vivemos ao lado do Frei Rui nos emociona.
Paz e Bem!!!

Dona Maria

Juci

08/04/2021 – 1a Semana da Páscoa sem o querido Frei Rui. Mas ele nos deixa uma bela e singela história que, com certeza, traz uma grande lição para todos os católicos.

ONDE ESTÁ O CRISTO?

O Estado é laico. E para provar sua laicidade, o Estado proibiu símbolos religiosos nas suas repartições. Isso significou proibir, inclusive, o sagrado Crucifixo que nos lembra o grande amor de Cristo por todos nós. O Estado é laico. O amor de Cristo é cristão. Um dia, tivemos a honra de receber a visita do Frei Rui no nosso setor de trabalho, pedimos que fosse para conhecer nosso pessoal, dar uma bênção.   Trabalhávamos em uma repartição pública de um Estado laico. Então, o lindo crucifixo que havia na parede da nossa sala, foi retirado. No local, colocamos uma Cruz. Sem o Cristo. Mas já era um consolo.

Quando o Frei Rui chegou e viu a Cruz sem o Cristo, perguntou:
– Edna, onde está o Cristo? Fugiu de vocês?
A Edna, entrando na brincadeira, mas falando a verdade, respondeu.
– Não, Frei. Ele ressuscitou…
O Estado pode ser laico, mas nosso coração é completamente religioso.

Vivemos nossa Páscoa com a alegria de saber que Ele, o nosso Cristo, não pode ser retirado de nenhuma parede. Porque Ele ressuscitou!

Feliz Páscoa, Frei Rui!
Nós sentimos muito sua falta!